Versões
Semana 14 – papéis perdidos e updates em filhos
Hoje apercebi-me de que perdi um papel onde tinha escrito uma ideia. Como sabem, é uma sensação muito má porque nos mói o juízo, mas que ideia seria? Seria assim tão boa? Bem, nunca vou saber. Posto isto, o texto desta semana.
O ano passado ia com o (meu filho) Sancho ver as escavadoras das obras de requalificação dos passeios no centro da cidade. Uma vermelha, outra amarela. Às vezes não me apetecia nada. Minto. Muitas vezes não me apetecia nada: ia buscá-lo à 1 da tarde, ele já tinha almoçado, eu não, um calor terrível, tudo o que queria era ir para casa, mas ia na mesma. Sentavamo-nos no passeio a ver, e ele ficava tão, mas tão entusiasmado quando uma escavadora passava perto. Ele tinha 2 anos, agora tem 3 e essa versão dele já não existe. Fico feliz por ter passado tanto tempo com ela.
A minha sensação como mãe é estar angustiada com a velocidade, com a pressa de querer aproveitar o momento com toda a calma do mundo, enquanto, ao mesmo tempo, tenho tanta coisa para fazer! E vontade de me sentar no sofá a ver um filme, comer tremoços e jogar sims, tudo ao mesmo tempo, mas sentir que não estou a fazer nada de nada.
Só que eles não crescem rápido, eles tornam-se pessoas (diferentes) a cada ano. A versão anterior deixa de existir. Os gostos mudam, a maneira como falam muda, o que sabem fazer muda todos os dias, as razões para se zangarem, a maneira como olham para nós e até o som que fazem quando nos dão beijinhos. Não tudo, mas muito muda. Se calhar não muda de segunda para terça, mas muda de março para novembro, e definitivamente muda de Natal em Natal.
A versão anterior existe suspensa dentro deles e sedimenta para criar o solo onde a versão seguinte se sustenta. Quanto mais forte for, melhor, mais forte será. Camada a camada. Mas, sobretudo, existe na nossa memória, na memória dos avós, dos vizinhos, das educadoras de infância, das babysitters, dos tios e tias, desses adultos à volta deles que são testemunhas da fase da vida que eles nunca se vão lembrar.
Uma vez que as crianças, hoje, têm menos pessoas a pertencer às suas vidas no dia-a-dia, também terão menos testemunhas. Felizmente o meu filho tem várias, de várias idades.
Não é difícil lembrarmo-nos disto todos os dias. Nós sabemos. Como mães, sabemos todos os dias que eles estão a mudar e a crescer rápido. O difícil é conciliar essa urgência de abrandar – e de abraçar, de dar colo, de fazer piadas, compreender, ter tempo – com as outras urgências – os projetos para entregar, o educar (e ralhar), o controlo emocional para responder como um adulto.
É difícil ralhar se estivermos sempre em carpe diem. Quem é que vai dizer que sim, sim!, o banho é para tomar!, a sopa é para comer!, e temos de ir para a escola nos próximos 5 minutos!, se só conseguirmos pensar que estes anos são tão fugazes? Quem é que se dedica a ficar zangado se o amanhã não interessar?
Só que o amanhã interessa, e muito – o nosso trabalho é esse. Aproveitá-los como se não houvesse amanhã, educá-los como se o amanhã fosse chegar mais rápido do que parece.




"Ele tinha 2 anos, agora tem 3 e essa versão dele agora já não existe." Que murro no estômago! É mesmo isso. Eles não crescem, eles têm metamorfoses e as idiossincrasias deles mudam de fase para fase. Acho que a minha curiosidade e entusiasmo pelas fases futuras ainda é o sentimento que prevalece face à melancolia da perda das fases passadas. Acho que em grande parte porque sei que vou passar por essas fases novamente, com o próximo. Mas quando se pensa realmente nisso, é assustador constatar a velocidade com que o tempo passa...
Li isto logo depois de ter acabado de montar uma nova secretária para o quarto da minha filha. Uma grande. Com gavetas para guardar coisas, e cuja altura vai bem acima da cintura dela. Bem diferente da antiga portanto, que tinha desde os 3, e que servia só para fazer desenhos e pousar bonecos. Tive exatamente essa sensação, (como já aconteceu antes com outras coisas) de que ali começava uma versão nova dela. Agora a secretária vai ser para guardar trabalhos, materiais, o computador da escola(!), e daqui por uns anos, possivelmente, coisas que vai querer esconder de mim. Fiquei a vê-la a organizar as gavetas novas com um aperto no coração. A ver, como dizes tão bem, esta nova versão a fazer a anterior desaparecer. Como as secretárias.
Eu sei que faz parte, mas há dias em que a impossibilidade de se lutar contra a velocidade a que tudo acontece é mesmo angustiante.
Obrigado por este texto!